Os jogos de tabuleiro transformando ciência em recreação

@DanJolin

Originalmente publicado dia 20 de Abril de 2019.

Foto: Lexey Swall/New York Times/Redux/eyevine

Jogos de tabuleiro com a temática ciência são um caminho cada vez mais popular para aprender tudo desde construir um átomo a colonizar o espaço.

Quer apostar? Jogo de tabuleiro de observação de pássaros de Elizabeth Hargrave, Wingspan.

Quando Elizabeth Hargrave criou um jogo de tabuleiro inspirado na sua paixão por observação de pássaros, ela não tinha nenhuma expectativa de que se tornasse um fenômeno de mesa. Mesmo assim Wingspan esgotou suas vendas em uma semana desde seu lançamento em Janeiro, ganhou análises brilhantes e foi matéria de um artigo do New York Times.

É tão além do que você poderia esperar, sabe?

“É tão além do que você poderia esperar, sabe?” diz Hargrave, uma pesquisadora em políticas de saúde em Washington DC. Uma vez que a maioria dos jogos de tabuleiro tem temas, amigáveis para geeks, como fantasia, ficção científica ou históricos, ela admite que estava incerta em “como se sairia com um tema tão fora do convencional”. Mas o tema “deixou as pessoas realmente empolgadas”, como veio a se revelar.

É um jogo enraizado em ciência sólida também. “Geek de planilha” confessa, Hargrave mergulhou fundo na sua pesquisa para garantir que cada carta do jogo de pássaros carregasse uma relação estreita com seu equivalente no mundo real, desde o Pica-pau-das-bolotas ao Canário-do-mato. Você não precisa gostar de pássaros para se divertir, mas você vai sair de uma partida de Wingspan sabendo muito mais sobre eles. “Eu quero que seja acidentalmente educacional”, diz Hargrave. “Eu não estava tentando fazer um jogo que ensina ativamente, mas mais chamar a atenção para o fato de que pessoas se conectam a essas coisas porque são coisas reais no mundo à volta deles.”

Wingspan é parte de uma nova onda de jogos e cartas inspiradas em CTEM (ciência, tecnologia, engenharia e matemática - STEM em inglês) que tem sido construída nos últimos cinco ou seis anos, com temas incluindo biologia celular, evolução, epidemias e colonização de Marte. Embora a conexão entre ciência e jogos não seja nova, ela se tornou muito mais inovadora e elegante.

“EduGames” esteve presente por muito tempo, através do qual, de acordo com Sam Illingworth, palestrante sênior comunicação da ciência na Universidade Metropolitana de Manchester, eles são “basicamente porcaria, normalmente desenvolvida por pessoas que nunca jogaram jogos antes e pensam “Vamos fazer uma releitura de Monopoly!”

Há milhares de ideias lá fora, e eles te proporcionam esse âmbito incrível. O céu é o limite.

Enquanto a ciência deles é sólida, Illingworth diz, a maioria dos Edugames são esquecidamente monótonos de jogar, tornando os sem sentido.

Era um problema que John Coveyou, um designer situado em St. Louis, Missouri, estava interessado em resolver. Recém formado professor de química, Coveyou chegou ao ponto de formar uma empresa Genius Games, dedicada a jogos CTEM amigáveis. Depois de perceber o quão intimidados muitos de seus estudantes ficavam por conceitos científicos e notando como ele e seus amigos de jogo lembrariam “informações inúteis sobre mundos de ficção científica e coisas que não existem”, ele argumentou que estratégias bem elaboradas de jogos seriam ideais para tornar a ciência acessível. Até agora, Coveyou desenvolveu e publicou jogos sobre ligação iônica, ligação covalente, construção de proteína, construção do átomo, DNA e biologia celular.

“É realmente divertido tomar a ciência e tentar fazer um jogo dela”, ele diz. “Eu vou gastar às vezes semanas em pesquisa, mapeando depois como todos os componentes e os processos vão ficar no jogo e como eles interagem. Ele nunca vai, ele insiste, tomar liberdades com a ciência pelo bem da jogabilidade. “Nós não podemos fazer tudo o que queremos, certo? Nós não podemos dizer: Vamos fazer o zumbi ter uma motosserra agora.” Nós voltamos ao livro para encontrar um meio de fazer a ciência combinar com o que nós estamos tentando fazer.”

Para Illingworth, que regularmente usa jogos de tabuleiro para engajar o público com conceitos científicos, jogos CTEM não vão te bombardear com informações, ao invés disso, eles vão elegantemente comunicar mensagens chave através de sua mecânica. Ele cita Terraforming Mars, desenvolvido pelo professor de ciências sueco Jacob Fryxelius, como um ótimo exemplo. “O que os jogos de tabuleiro fazem muito bem é que eles encorajam você a processar os fatos que você aprende do seu próprio modo - para ligar os pontos,” diz Illingworth. “Quando você joga Terraforming Mars, você pensa consigo: “Uau, Terraforming Mars é realmente difícil . Por quê nós queremos fazer isso se já temos nosso planeta para cuidar?”

A onda CTEM em jogos não mostra sinais de abatimento. “Eu acabo de terminar um jogo sobre migração da borboleta-monarca”,diz Hargrave, que também está trabalhando em um jogo inspirado em um experimento genético soviético dos anos 1950 envolvendo a domesticação de raposas. Enquanto isso, o próximo lançamento de Coveyou’s, é Periodic:Um Jogo de Elementos, para amarrar com o 150º aniversário da tabela periódica.

A inspiração que a ciência provê aos desenvolvedores de jogos é infinita, Coveyou diz. “Há milhares de ideias diferentes lá fora, e elas já te fornecem essa estrutura maravilhosa. Existe uma quantidade absurda de conceitos científicos. O céu é o limite.

Movido à CTEM...

Cinco jogos de tabuleiros baseados em ciência essenciais.

1. Jogo de biologia celular Cytosis: 100% orgânico.

Cytosis, A Cell Biology Board Game (2017)

Desenvolvedor: John Coveyou

O jogo mais bem sucedido até hoje de Coveyou, Cytosis, é um jogo de colocação do trabalhador, o que significa que cada jogador tem um conjunto de peões trabalhadores que ele coloca no tabuleiro em lugares específicos para provocar ações diferentes ou recompensas.

Aqui, este tabuleiro é uma representação colorida de uma célula humana e os trabalhadores são colocados em organelas, onde eles podem coletar carboidratos ou ATP, ou adquirir cartas de componentes celulares. Seus recursos podem ser usados para construir enzimas, hormônios e receptores hormonais, ou para ajudar a descontaminar a célula, todos nos quais o jogador ganha “pontos de saúde”;no final do jogo quem tiver mais pontos de saúde vence.

Como a frente da caixa apresenta, Cytosis é tão fiel ao processo real que ocorre em uma célula humana que foi aprovado pelo “The Journal of Cell Science” (A Revista da Ciência Celular).

2. Evolution: creatures featured.

Evolution (2014)

Desenvolvedores: Dominic Crapuchettes, Dmitry Knorre, Sergey Machin

De acordo com a revista Nature, o tema evolução deste jogo não é à toa, “ele impulsiona o jogo”. Coletando e combinando diferentes cartas características (como Casco Duro, Chifres e Carnívoro), jogadores competem para combater a fome e predação, e ganham por criar a espécie mais adaptável e populosa.

Cada espécie é representada por um pequeno tabuleiro do jogador que rastreiam seu tamanho e população, enquanto tokens de comida são coletados para pontuar no final do jogo. Com 129 cartas de características, há muita variedade - em torno de 12.000 espécies em potencial para criar - e você pode dividir seu estilo de jogada entre reproduzir pacíficos comedores de planta ou criar carnívoros para se alimentar das feras dos outros jogadores. Embora haja sempre o perigo de não havendo nenhuma presa válida no tabuleiro, seu carnívoro tenha que se alimentar dos seus próprios comedores de planta.

3. Pandemic: Iberia - quite infectious.

Pandemic, Iberia (2016)

Desenvolvedores: Jésus Torres Castro, Matt Leacock

O jogo Pandemic de combate à doenças de Matt Leacock é um título de enorme sucesso, que foi reformulado diversas vezes desde sua publicação em 2008.

Uma edição recente é Pandemic: Iberia, que alterna entre a configuração original moderna e global e o Península Ibérica de 1848*. Cada jogador deve tomar um papel específico - enfermeira, marinheiro, ou ferroviário, por exemplo - e viajar por Iberia, cooperando para encontrar a cura para quatro doenças: Malária, tifo, febre amarela e cólera.

Sam Illingworth tem usado seu jogo para ajudar a ensinar crianças estudantes sobre as diferentes causas das doenças e a importância do tratamento de água, mas ele diz que Pandemic também tem uma mensagem central brilhante de que não é somente um cientista no laboratório combatendo a doença, são várias pessoas trabalhando em conjunto”.

4. Terraforming Mars: um passo gigante.

Terraforming Mars (2016)

Desenvolvedor: Jacob Fryxelius

Esse não é somente um ótimo jogo de ciência, é um ótimo jogo e ponto final, e é atualmente classificado o quarto melhor no mundo pelo website para jogadores hobbistas BoardGameGeek.

Cada jogador incorpora uma corporação do século 24, cujos esforços combinam com os de outros jogadores para fazer de Marte habitável através de aumento de temperatura (para 8ºC), cobertura do oceano (para 9% da superfície do planeta) e nível de oxigênio (para 14%).

Ao mesmo tempo, cada um está buscando ganhar a maior “taxa Terraforming” através da construção de infraestrutura no planeta, via colocação de peça, em um mapa precisamente renderizado de Marte, e executando projetos bem sucedidos jogando cartas de projeto que cooperam em muitas e recompensadoras formas.

5. Wingspan: voando das prateleiras.

Wingspan (2019)

Desenvolvedora: Elizabeth Hargrave

Poucos jogos parecem mais atraentes quando espalhados na sua mesa do que Wingspan. Ele possui uma torre de dados “alimentadora de pássaros”, dezenas de miniaturas de ovos coloridos em tons pastéis e 170 cartas, cada uma com uma obra de arte vibrante e informações profundamente pesquisadas sobre pássaros. Mas há muito mais nesse jogo que a impressionante plumagem.

Cada jogador tem seu próprio tabuleiro, representando um habitat dividido em bosque, pasto e pantanal, nos quais eles devem jogar cartas de pássaros, cada uma com um valor de pontuação diferente. Esses pássaros também podem ganhar pontos extras ao deixar ovos, armazenando comida e ativando seus poderes (por exemplo, uma ave de rapina pode permitir você comprar uma carta do monte e, se sua envergadura for menor do que certo tamanho, mantenha-a para um ponto bônus no final da partida).

É elegante, fácil de aprender e um prazer de jogar; merece ser um sucesso.

Artigo escrito pelo jornalista Dan Jolin para o jornal britânico The Guardian, original em inglês disponível no site do The Guardian.

Tradução livre por Márcia Mayumi Suzuki Machado para o site Goori Design Studio.

*o jogo 1848 também existe, porém, dado o contexto o título provável a que o autor se refere seria “1858: The Railways of Iberia”.